ABSURDOS URBANOS - a partir de “Os adultos estão na sala”, do Projeto In.Cômodos

Em uma antiga vila da elite paulistana, abandonada por sua decadência, depois ocupada por movimentos sociais, desapropriada pela polícia e transformada em centro cultural, vemos um espetáculo justamente sobre a classe média em crise. Somos convidados a entrar em uma insólita sala de estar, dispostos ao redor dos móveis, como voyeurs de um cotidiano em ruínas. Um sofá, várias garrafas, livros, duas mulheres desmaiadas e um enorme pé vermelho no teto configuram a primeira imagem da ficção que irá nos envolver. Essa aproximação entre uma dramaturgia do absurdo e uma encenação em espaços não convencionais é o que irá produzir o nó no qual o espetáculo se enreda.
Depois de um longo silêncio, uma das atrizes acorda estrondosamente. Desorientada, tenta lembrar com a outra o que aconteceu na noite anterior. Aos poucos vamos percebendo que são amigas de escola, mas que já adultas percorreram caminhos distintos: Ivone Dim é a amiga rica, bancada pela mesada da mãe, se veste com roupas esportivas, tem um carro e irá se casar; Clara Day é a dona do apartamento, estudou em universidade pública e trabalha para manter o padrão de vida - não foi ao Marrocos porque comprou o sofá em que elas estavam dormindo. Inicialmente vemos o conflito das duas emergindo justamente dessa pequena distância que as separa fruto da perda de status social de Clara. O conflito de classe descamba para um conflito moral, no qual Ivone cinicamente assume sua posição elitista e tenta mostrar para a amiga que ela não pensa tão diferente assim.
A tensão se eleva quando Ivone vê uma mulher encostar no seu carro. Depois de xingá-la com as piores expressões possíveis - nos revelando uma personagem que não tem medo de ser babaca, raridade no teatro de bons moços de hoje em dia - ela lança um balde de água sobre a outra mulher. Ela sobe ao apartamento - encharcada, gotejando perto do público - para tirar satisfações. Ela se apresenta como uma mãe trabalhadora, exausta, com olheiras e que está fazendo uma mobilização contra a construção de uma ponte na vizinhança. Convoca Clara para a mobilização, e invade o apartamento pendurando na janela uma enorme faixa “ABAIXO A INUTILIDADE DA PONTE”. Aqui há um tensionamento concreto do aparente conflito entre Clara e Ivone, revelando que era apenas uma disputa na mesma classe. A faixa traz a dimensão pública do problema aparentemente interpessoal das amigas. A guerra da cidade invade o apartamento.
Contudo, em uma reviravolta no discurso, a posição da vizinha trabalhadora se inverte. Ela sai pedindo um abaixo assinado contra a população de rua, pela expulsão dos moradores que mijam nas calçadas do condomínio.Vemos então a revolta desorientada que marcou os anos de 2014, quando Michelle Ferreira escreveu a peça. Dulce, a vizinha revoltada, encarna de alguma forma a camada da população que se revoltou em 2013, mas que direcionou sua raiva social não contra as grandes empresas, mas contra justamente aqueles que mais sofrem nas cidades. Aparentemente absurda, a virada reacionária de Dulce - a mulher trabalhadora, escorraçada pela rica Ivone Dim, organizada politicamente em torno do direito à cidade - na verdade é algo extremamente realista.
Colocada em cheque em seus ideais progressistas pequeno burgueses, Clara Day se vê pressionada ora por sua amiga rica explicitamente agressiva em seu elitismo, ora pela militância confusa de sua vizinha. Tudo fica mais tenso quando Dulce deixa seu filho no apartamento para sair pedindo assinaturas para seu abaixo-assinado higienista. Ivone e Clara se vêem responsáveis por uma criança completamente desconhecida, presentificada na encenação pela luz e pelos barulhos que vem de um dos cômodos da casa. A amiga rica desiste, vai embora. Dulce volta exausta, se droga. E Clara, sozinha, sai por uma grande porta, que revela o resto da Vila Itororó. Ao fundo, um segurança se aproxima, mira a atriz, entra no espaço cênico e vai embora.
Esse imprevisto - um funcionário que cruza a cena - aponta para uma latência contida no espetáculo: o limite entre o real e o absurdo. A proximidade física que temos com as atrizes faz com que, perigosamente, nos aproximemos emotivamente delas. A atuação realista - radicalmente diferente da escolha plástica da outra montagem do grupo em “Mantenha fora do alcance do Bebê” - e o uso do espaço de acordo com as situações propostas na peça (o banheiro é um banheiro, a janela é uma janela, etc.), faz com que fiquemos imersos na ficção. Uma parcela do público reagiu energicamente às falas absurdas de Ivone ou à apatia de Clara. Contudo, se por um lado a identificação com a situação absurda pode nos acordar para o próprio absurdo da realidade, por outro ele pode produzir uma atitude conformista, de que “as coisas são assim mesmo, não há o que fazer”.
Talvez esteja justamente aí o limite do absurdo produzido pelo espetáculo. Quando até Dulce, a personagem que parecia carregar consigo a possibilidade de uma ação coletiva, tem sua revolta esvaziada, convertendo-se em uma militância reacionária e, depois, em uma fuga lisérgica, resta pouco espaço para imaginar outras formas de intervenção sobre a cidade. O absurdo, que poderia desnaturalizar a realidade, termina por encerrá-la em um circuito de impotências: a rica é abertamente elitista, a trabalhadora torna-se higienista, a progressista paralisa. Não há propriamente uma saída, mas diferentes maneiras de permanecer preso à mesma crise. A saída final de Clara é, nesse sentido, revelador: diante de uma cidade que parece absurda demais para ser transformada, a única possibilidade de ação que o espetáculo consegue vislumbrar é abandoná-la.
Nesse contexto, a realização da encenação na Vila Itororó produz uma tensão que talvez o próprio espetáculo não consiga resolver. Ali, a disputa pela cidade não é apenas tema da ficção. Ela está materialmente presente, inclusive nas disputas que fizeram aquele espaço existir como ele existe hoje. Quando o segurança atravessa a cena, por alguns segundos, esse outro teatro se impõe. Não é mais o absurdo que irrompe no real; é o real que irrompe no absurdo. Seu corpo atravessa a ficção sem pedir licença e nos lembra que, do lado de fora daquela sala, as relações de classe, propriedade e vigilância não são metáforas.
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