ENTRE TIJOLOS E TRUPÉS - a partir de “Parelha, um olhar sobre a realidade”, do Núcleo Parelha

Antes de entrar no espaço cênico, duas espectadoras começaram espontaneamente a contar sobre sua vida em Parelheiros e suas relação com o Núcleo Parelha, formado por Dionísia Gonçalves e Maria José Alves. As espectadoras, entusiasmadas, contavam as delícias do bairro, os restaurantes, os parques e também as atividades culturais, dentre elas o Núcleo Chão(s) de Teto(s), fruto de oficinas dominicais promovidas pelo Parelha em sua sede laje. Ou seja, antes da peça começar ela já havia começado, num percurso de 37 km entre o centro do bairro e a sede da Cia de Teatro de Heliópolis, espaço em que a apresentação aconteceu. E um pouco do próprio espetáculo já se revelava nessa conversa insuspeita dessas espectadoras e vizinhas: a relação tensa entre Parelheiros, o Centro da cidade, a Prefeitura e a cultura no meio disso tudo.
Contudo, as artistas se vêem diante de uma primeira questão: como falar de um território em cena? Originalmente apresentada em uma laje em Parelheiros, a peça tem circulado por distintos espaços, trazendo consigo um pouco de seu contexto de origem. Para isso, logo que entramos no espaço cênico, já avistamos quatro paredes de tijolos, que são complementadas por uma descrição detalhada de como seria assistir a peça na laje mesmo. Teríamos que subir alguns lances de escadas, pedir licença para alguns moradores, atravessar varais de roupas e então se sentar em uma arquibancada para assistir o espetáculo. Essa descrição é essencial para compreendermos não só o contexto de produção da peça, mas também imaginarmos outras formas de fazer e ver teatro.
Feita essa contextualização, a peça se estrutura a partir de dois eixos: o primeiro de viés ficcional, no qual dois cavalos - Santa Cruz e Parelheiros - dialogam sobre obedecer ou não as regras impostas pelas corridas de cavalo; o segunda de viés documental, narra a relação das artistas com o bairro e sua história. Essa escolha bi-partida por vezes gera uma fragmentação da narrativa, deixando lacunas, que vão sendo respondidas ao longo do espetáculo. Mesmo assim, a escolha provoca tensões interessantes no qual ficção e realidade se dialetizam mutuamente. Assim, da mesma forma que as artistas se perguntam porque não derrubaram um muro que a vizinha ergueu autoritariamente, vemos Parelha instigando seu irmão mais velho Santa Cruz a se rebelar contra o cabresto.
O ir e vir entre ficção e documento também aparece em outros elementos compositivos do espetáculo, para além de sua dramaturgia. A música, por exemplo, foi construída apenas com instrumentos feitos de materiais encontrados na laje. Assim, uma bacia vira uma bateria; uma calha vira um megafone; tijolos ressoam com amplificadores acoplados. Essa operação, longe de ser um mero recurso estético ou uma condição da precariedade, revela que outras sonoridades emergem quando nos deslocamos do palco italiano tradicional.
Esse deslocamento da tradição eurocêntrica também se faz presente na construção corporal das atrizes que bebem do Cavalo Marinho para a construção de Santa Cruz e Parelha. Assim, a diferenciação dos dois equinos não se dá apenas em sua atitude verbal, mas se manifesta em trupés diferentes: Santa Cruz é constante e ritmado, enquanto Parelha volteia, bamboleia, dá saltos. Ao proceder dessa forma, o Núcleo Parelha aproxima o território de Parelheiros ao da zona da mata pernambucana, fazendo ver que um bairro nunca está isolado em suas questões, mas sim ressoa a vida de outras tantas periferias.
É justamente nessa tensão entre o território que a peça representa e o território que ela deseja transformar que o espetáculo encontra sua força política. Ao reivindicar um teatro feito a partir de Parelheiros e para Parelheiros, o Núcleo Parelha não está apenas contando a história de um bairro: está disputando quem tem o direito de produzir e ocupar os espaços de cultura da cidade. Parelheiros, com seus 199 anos de história, ainda não conta com um aparelho teatral montado, embora reúna mais de 56 coletivos culturais. A ausência de um palco, portanto, não significa ausência de cena — significa que ela vem sendo construída em lajes, ruas, quintais, oficinas e nos corpos de quem insiste em fazer.
Ao final, quando as atrizes cantam que “essa flecha não acerta hoje, mas ela acerta o hoje amanhã”, o espetáculo parece lançar para o futuro aquilo que o presente ainda não consegue realizar. A flecha é também o próprio teatro: um desejo que talvez não encontre ainda o alvo institucional, mas que já desloca o imaginário sobre o que pode ser um espaço cênico. Entre tijolos e trupés, o Núcleo Parelha aponta para a construção de um teatro em Parelheiros — não como promessa de um edifício que finalmente levará cultura ao bairro, mas como reconhecimento de que a cultura já está lá. Resta, talvez, que a cidade pare de olhar para a periferia apenas como território a ser alcançado e passe a reconhecer que, dali, também partem flechas capazes de acertar o futuro.
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