ENTRE A IDEIA E A MATÉRIA, A MISÉRIA - a partir de “Velhos caem do céu como canivetes”, da Pequena Companhia de Teatro
- capivara crítica
- 2 de mar.
- 5 min de leitura

“O país que poderia ser feito com todos os exilados e emigrantes forçados da América Latina teria uma população mais numerosa do que a Noruega. Me atrevo a pensar que é esta realidade descomunal, e não só sua expressão literária, que este ano mereceu a atenção da Academia Sueca de Letras. Uma realidade que não é a do papel, mas sim que vive conosco e que determina cada instante das nossas incontáveis mortes cotidianas, e que sustenta um manancial de criação insaciável, pleno de má sorte e beleza, realidade da qual este colombiano errante e nostálgico não é mais do que uma cifra assinalada pela sorte. Poetas e mendigos, músicos e profetas, guerreiros e malandros, todas as criaturas daquela realidade desaforada, nós temos que pedir muito pouco a imaginação, porque o desafio maior tem sido a insuficiência dos recursos convencionais para fazer com que nossa vida seja acreditável. Este é, amigos, o nó da nossa solidão.” - Gabriel García Márquez, durante seu discurso do Nobel, dezembro de 1982
O breu. Uma luz lentamente vai revelando um corpo estendido. Nas costas, duas penas coladas com fita crepe. Conforme a luz aumenta vemos objetos variados: cruzes feitas com colheres de pau, um móbile com plásticos azuis, um caranguejo, fios, lâmpadas, e uma enorme torre de latinhas de Guaraná Jesus. A cenografia parece metaforizar o encontro que irá acontecer ao longo da peça. Da mesma forma que o ser alado e o ser humano debatem sobre vida em chaves opostas (a ideia e a matéria), os objetos jogam com esses pólos justapor imagens díspares: um utensílio de cozinha se transmuta em um símbolo religioso, da mesma forma que Jesus se vê acoplado a uma latinha rosa e azul. E por meio desses encontros, que a Pequena Companhia irá debater um conceito que se equilibra em pólos opostos: a miséria. Seria ela uma ideia abstrata ou uma condição eminentemente material?
Tentando responder a essa pergunta, o espetáculo “Velhos caem do céu como canivetes” recria a obra “Un señor muy viejo con unas alas enormes” de Gabriel García Márquez. Nesse pequeno conto, vemos como a vida de uma família se transforma quando um anjo cai em seu quintal. Vemos a dúvida e a agressão ao desconhecido se transformarem em interesse financeiro e posteriormente em questão apostólica. A família passa a acumular dinheiro vendendo entradas para ver o anjo, criando para si uma casa fortaleza, com muros altos e grades nas janelas. A pequena vila, vira ponto turístico de peregrinação e fetichismo exotificante. Até as altas esferas da Igreja são envolvidas. No fim, tudo se dissipa com a chegada de uma trupe de circo que traz consigo uma mulher tarântula, muito mais bizarra e carismática do que o anjo caído. Esquecido em seu canto, as asas do velho se recuperam e ele volta aos céus.
Confrontada com esse material narrativo, povoado de recursos fantásticos, a Pequena Companhia se vê diante de um problema produtivo: como transpor uma linguagem para outra? Ao longo dos seus 20 anos de carreira, o grupo desenvolveu uma metodologia própria para esse processo de criação dramatúrgica, cujo resultado pode ser visto na Ocupação Maranhense, que leva ao CCBB-SP quatro espetáculos cujas fontes primárias são textos literários. No caso específico aqui tratado, a opção dos artistas foi de instaurar uma situação dramática no lugar da narração épica. Ao invés de termos contato com a história do ser com asas como se alguém a estivesse nos contando depois de a muito tê-la vivido, somos postos diante do momento exato em que o encontro ocorre.
Dessa forma vemos como o idealismo do anjo caído se confronta com o pragmatismo do homem miserável. O primeiro - que no conto é um personagem calado - passa a indagar o segundo sobre seu mundo, querendo conhecer uma realidade tão distinta dos divinos céus de onde ele foi exilado. O diálogo dos dois perpassa temas presentes no conto, utilizando frases presentes no texto. Contudo, deslocadas da linha narrativa elas se tornam argumentos em um debate de ideias entre dois seres que enxergam o mundo de maneira distinta. Como eixo articulador do debate está a miséria, estado partilhado por ambos, mas que gera interpretações distintas. Para o anjo, essa palavra está relacionada ao espírito, enquanto para o segundo “mais vale uma alma anêmica e um corpo saciado”. Aos poucos o anjo vai descobrindo o mundo humano e se apaixonando por ele, a ponto de se divertir com os objetos criados pelo homem a partir da sucata. Gira em um brinquedo criado pelo ser humano para tratar o alcoolismo, e no desequilíbrio parece voar. Vemos a matéria se sobressaindo a tal ponto que ao fim, o homem mata o ser alado e afirma “matei a última galinha”.
Assim, diversos elementos da obra apoiam as ideias defendidas pelo homem. O cenário composto por lixo contradiz todas as falas do anjo que tenta se elevar espiritualmente. Mesmo compondo crucifixos, fogueiras e nuvens, a materialidade da sucata se sobressai às imagens apontadas pelas composições. Também do ponto de vista da atuação, o ser alado age de maneira lunática, balbucia palavras, contorce o corpo, enquanto o ser humano pronuncia perfeitamente suas frases e se mantém ereto. Tudo parece caminhar para que critiquemos os discursos do anjo, que se torna um filósofo arrogante e debochado, iludido diante da miséria humana - e celestial, afinal ele também é um miserável.
Contudo, por mais que esses elementos apontem para a razão da matéria sobre a ignorância da ideia, a estrutura do espetáculo é idealista. Ao transpor a narrativa para o drama, todo processo social descrito por García Márquez se torna argumento de um debate, e não acontecimentos cujas causas e consequências podemos avaliar. Dessa maneira, o homem começa e termina miserável, como se a miséria fosse uma condição permanente, fruto de suas próprias escolhas, e não da influência de outras ações humanas. Isolado junto ao anjo caído, o homem fica desprovido de ação, apenas perambula e alimenta o fogo da fogueira com os colheres com que montou crucifixos. Ao reduzir a ação ao espaço e ao tempo de uma conversa, a dramaturgia retira toda a ação e a transformação sofrida pelas personagens. Vemos apenas mudanças de ideias, e não na condição material das personagens. Quando a mudança ocorre - o assassinato do anjo pelo homem - a peça acaba. Dessa maneira, por mais que no embate discursivo dos personagens a materialidade se impõe sobre o idealismo, vemos que na estrutura do espetáculo os conceitos de “idéia”, “matéria” e “miséria” se sobrepõem às ações.
Como apontado por García Márquez em 1982, nós artistas, espectadores, trabalhadores desse continente imaginado América Latina, temos que articular constantemente a fábula e o fato. Nesse sentido, a Pequena Companhia se inscreve em uma longa linhagem de artistas engajados com seu território, preocupados com a resolução do nó da nossa solidão, como diria o narrador colombiano. Contudo, ao apostar na lógica dramática, a obra desvia do realismo maravilhoso e se aproxima mais do existencialismo francês, no qual personagens condenados à convivência debatem eternamente temas, mas não agem. Nesse sentido, corremos sempre o risco de estarmos olhando para nossa realidade - o que é sempre positivo em um cenário em que abundam peças autocentradas ou escapistas - mas através das lentes estrangeiras, que pacificam nossos problemas ao colocar tudo como um debate de conceitos.
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