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OS RISCOS DA METONÍMIA - a partir de "Pés-Coração" do Coletivo Labirinto

  • Foto do escritor: capivara crítica
    capivara crítica
  • 3 de abr.
  • 4 min de leitura

Qual caminho você percorreu até chegar ao teatro? Veio a pé? De carro? Metro, ônibus e trem? E antes disso? Por quais  terras seus pés já correram? Quais fronteiras cruzaram? Quais limites ultrapassaram? Perguntas que podem surgir na sua cabeça, enquanto caminha pelo palco do Sesc Pompeia, a convite do Coletivo Labirinto. Palco que já foi chão de fábrica, como lembra uma das atrizes. No meio da nossa caminhada, uma atriz canta uma música andina, ecoando a frase freiriana "a cabeça pensa onde os pés pisam". E aqui está o nó do espetáculo: existiria alguma relação entre uma ideia de América Latina e o ato de correr?

Buscando possíveis respostas, o Coletivo Labirinto elabora um espetáculo quase como uma corrida de obstáculos, no qual cada atriz atravessa etapas específicas. Assim, vemos a versão de cada uma delas sobre o depoimento de uma mulher desconhecida que cantava na frente do teatro. Também vemos cada uma delas fazer uma cena de depoimento ficcional sobre alguma cena cotidiana em que corriam. Cada uma faz uma palestra sobre a corrida na dança, a corrida como mercado e a corrida para os rarámuri - povo indígena do norte do México. Ou em uma cena coletiva repetida três vezes, em que cada repetição uma das atrizes perdia seu sapato a caminho de um desfile de escola de samba. Nesse desfile, vemos uma dançarina que se delicia com os pés de uma desconhecida na balada, um trabalhador que se apaixona pela corrida do lixeiro na sua rua, uma mulher que corre no aeroporto para levar um coração transplantado. 

Cenas de realidades díspares, mas justapostas por um único elemento: a corrida. Essa operação - que é o coração dramatúrgico do espetáculo - nos leva a crer que nossa “latinidade” estaria vinculada a essa ação. Na mesma pista correm, lado a lado, a mulher indígena, o trabalhador precarizado, uma executiva nos aeroportos e uma farialimer viciada em maratonas. Tomando a parte pelo todo, o espetáculo acaba por ignorar as desigualdades sociais existentes entre esses distintos corredores. O corre - palavra de significação específica para o trabalho - vira metáfora identitária, assim como a Corona que uma das atrizes bebe, ou o carnaval que sempre retorna ao espetáculo. 

A América Latina surge como um continente alegre e apaixonado - afinal todas histórias narradas envolvem o amor como eixo central - e não como um território de disputas internas e externas. Nessa perspectiva, a marca Nike focalizada pela câmera em um dos tênis do figurino é apenas símbolo desportivo e não um retrato do imperialismo sobre nosso continente. Assim como os figurinos com as listras Adidas, que não são problematizados. Ao final, as atrizes descalçam os pés apontando para uma idealizada reconexão com a Terra, mas que ignora a precarização da vida daqueles que são obrigados a andar com o sapato furado, o chinelo estourado e o pé sangrando.

Nessa perspectiva, a corrida rarámuri é vista como uma resposta para a desconexão vivida pela sociedade neoliberal com o sentido do correr. “Corremos pelos motivos errados” como diz a viciada em maratonas, em determinado momento. Nessa articulação, a perspectiva ameríndia é vista como uma resposta salvadora, que nos redime do nosso pecado modernizador. “Quando a gente ouve um idioma desconhecido é como se a gente virasse bicho”, uma das atrizes diz, repetindo acriticamente o imaginário europeu, que em contato com os povos indígenas se encanta com sua “harmonia com o mundo natural”. Por fim, ao nos contar a história de Rita Patiño, rarámuri sequestrada no Kansas durante uma corrida, um dos atores se pergunta “se fosse eu? O que me levaria a correr?”. Rita vira pretexto para que ele reflita sobre si, e não sobre os motivos que levaram ela a correr. 

E em cena, qual é a posição da atriz indígena? Ela não faz parte das outras cenas como as demais. Ela canta, no escuro, enquanto o contrarregra arruma a cadeira para que a atriz branca dê seu depoimento sobre a mulher que canta. Vemos concretamente a falha do discurso de que porque corremos somos todos latino-americanos. Se assim fosse, a atriz indígena faria parte das outras cenas também, não estando limitada ao final do espetáculo, no qual narra sua própria história de trabalho infantil na Bolívia. Ela conta de como percorria distâncias quando lia os livros da livraria em que trabalhava. A ficção é posta como possibilidade de resistência à realidade, mas o espetáculo retira significativamente as possibilidades ficcionais da atriz na medida em que à ela apenas cabe o relato pessoal, e não os personagens que as outras atrizes desempenham. 

Distanciando-se da perspectivas de espetáculos anteriores, como a crítica ácida de “Onde vivem os Bárbaros”, da análise política de “Mirar: quando os olhos se levantam” e do terrorismo poético de “Argumento contra a vida inteligente no Cone Sul”, o Coletivo Labirinto entra no campo arriscado da metonínimia filosófica, em que a parte passa a significar o todo. Operando dessa forma, não vemos o todo como uma disputa de partes desiguais e conflitantes, mas como uma repetição de um mesmo gesto poético: a corrida. A metonímia, mais do que figura de linguagem e recurso poético, funciona como uma estrutura de pensamento perigosamente descontextualizante. Por meio dela, mesmo falando sobre um território específico, acabamos caindo no plano das ideias, ignorando as condições materiais que as sustentam.


 
 
 

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