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INFÂNCIAS IMAGINADAS - a partir de “Saudade”, de Os Geraldos

  • Foto do escritor: capivara crítica
    capivara crítica
  • 17 de mai.
  • 3 min de leitura

Bolas, cobras de pano, peões, cavalos de pau. Grandes túnicas brancas insinuam fantasmas e super-heróis. Panela na cabeça e talco. Dentes falsos e blusas bordadas com delicadas flores. Um piso espelhado e uma grande lua branca. Uma árvore de ponta cabeça, de onde pendem um chinelo, um pandeirão e um prato. É nesse cenário meio brinquedo, meio sonho, que vemos o processo de transformação da experiência da morte para um grupo de crianças. Da brincadeira de morrer até a golfada de sangue derradeira, acompanhamos as idas e vindas de uma certa ideia de criança, de morte, de campo e de passado. “Saudade” se equilibra entre uma nostalgia passadista alheia às tensões sociais presentes na infância e uma potencialidade lúdica transformadora que faz reavivar no público os horizontes da brincadeira.

Partindo do conto “Pinguinho”, do autor maranhense Viriato Corrêa, o espetáculo recheia a história do povoado em que a morte era festejada pelas crianças com outras peripécias infantis presentes na poética de Rubem Alves. Assim vemos um coro de atores e atrizes adultos que quando colocam um dente falso se transformam em crianças arteiras. O jogo de tirar e pôr o dente, de ser adulto e criança sintetiza no campo da atuação os dois mundos que entram em choque na peça: o mundo das regras, da seriedade e das proibições da maioridade e o universo irrestrito das brincadeiras no qual podemos ser vampiros, bonecas, padres e capetas. Essa tensão se expressa também no público do espetáculo: apesar de vermos em cena um mundo infantil, na plateia vemos apenas adultos.

Desse modo, o que se produz não é necessariamente uma reflexão sobre as infâncias contemporâneas, mas sim sobre nossas infâncias do passado, consequentemente permeadas da lembrança, da imaginação e da idealização. Vemos uma comunidade de crianças que idilicamente vive no mundo da brincadeira, vencendo até a morte, na medida em que um enterro virava mais uma oportunidade para fugir dos adultos. Tudo se desfaz quando Pinguinho, o organizador dos jogos e artimanhas, morre de tuberculose. A morte então deixa de ser algo abstrato, alheio e passa a ser algo íntimo, produzindo a saudade. Mas a saudade que vemos em cena não é apenas do personagem, mas de um tempo e espaço “perdido”. Se mesclam a um só tempo a saudade de ser criança e a saudade do campo, também esse idealizado, apartado das desigualdades sociais presentes na vida rural brasileira. Homogeneizadas por meio da maquiagem esbranquiçada, o coro de crianças canta impunemente a música “Sambalelê” ou estraçalham uma boneca, ignorando o alto teor racista da letra e o machismo presente na ação de desmembrar uma figura feminina.

Vistas pelas lentes da brincadeira, essas ações podem perigosamente produzir no público um espírito saudosista. “Olha só como no passado a gente brincava de verdade”. Mesmo usando de recursos de distanciamento, ao retirar o dente falso e torna-se novamente a atriz adulta que diz o texto, não somos levados à criticar aquilo que vemos. Pelo contrário, o uso de músicas espetaculares ou de canções populares no nosso imaginário, como “Luar do Sertão”, reforçam nossa imersão emocional no espetáculo. Um elemento que poderia provocar essa distância crítica é uma senhora, que margeia a cena, calada, observando. Contudo, ao fim, quando ela se manifesta, ela reafirma em seu discurso a continuidade das coisas, que tudo ficará do jeito que está.

Essa perspectiva entra em contradição justamente com as ações que vemos em cena, na qual tudo se transforma por meio do jogo lúdico. Os valores se invertem, os objetos perdem sua função original. O ápice da transformação é justamente na morte de Pinguinho, quando bolas azuis voam para o público, convidando o espectador à jogar. A nostalgia do mundo infantil deixa de ser uma idealização do passado, se tornando uma ação presente, concreta. Mas rapidamente essa operação perde espaço para a espetacularização final, na qual as roupas infantis dão lugar à roupas transparentes bordadas com flores e o piso se transforma em um palco de show iluminado com LEDs. Dessa forma, ao final, tanto no conto quanto na encenação, a perspectiva lúdica perde espaço para a seriedade do mundo adulto.

 
 
 

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