ESPECULAÇÕES FATAIS - a partir de “E se?” da Cia Tectônica
- capivara crítica
- 4 de ago.
- 3 min de leitura

Havia uma pedra no meio do caminho.
Havia uma pedra no meio da cidade. Havia uma pedra no meio da boca. Havia uma pedra no meio do bolso. Havia uma pedra no meio do rosto. Havia uma pedra no meio do palco. Haviam algumas pedras.
Assim como o poeta mineiro, a Cia Tectônica se depara com várias rochas em seu espetáculo “E Se?”, buscando dar forma a diferentes questões que atravessam o cotidiano de habitantes de uma metrópole. Como um mosaico, a peça se estrutura a partir de fragmentos da vida de distintos personagens, exatamente no momento em que eles se defrontam com uma questão. E se eu pulasse? E se eu tivesse uma bomba? E se eu estivesse grávida? E se a gente se separasse? E se eu fosse embora? E se…
A cada cena, uma pedra é colocada, de maneira que, ao final, o que era um palco liso se torna uma superfície acidentada. As perguntas surgem como obstáculos, que necessariamente nos fazem interromper nosso percurso acelerado e tomar uma decisão: ou desviamos, ou saltamos, ou paramos ou pegamos a pergunta na mão e fazemos algo com ela. A imagem de uma pedra que cai do céu e interrompe uma grande via da metrópole explicita que a pergunta pode ser capaz de, por um segundo, alterar os rumos impostos pelo capital, que nos obriga a caminhar sempre, sem pestanejar, sem pensar. Em vários momentos, o coro de atuantes caminha freneticamente e subitamente para, observa e descreve cenas que o público imagina, mas não vê, reforçando a relação intrínseca entre o imaginar e o questionar. Contudo, se a peça aponta essas possibilidades - e a possibilidade é o mote central do espetáculo - parece que o possível foi capturado. A maioria dos “e se” do espetáculo apontam para o fim: uma mulher que se imagina caindo no trilho do trem; um homem que planeja um atentado terrorista; um casal que termina; alguém que vai embora; uma atriz explorada em seu trabalho. A pergunta que cai do céu não surge como um momento de ampliação dos horizontes do possível, de imaginação de outras formas de viver, mas sim como o fim. A rocha é como o meteoro da extinção e não a pedra usada para quebrar a vidraça do capital. Nesse sentido, é sintomático que o espetáculo termine com o próprio fim da ideia de humanidade, com todos nós ouvindo a pedra falar no microfone.
Fruto de um momento em que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo, as perguntas de “E se?” se limitam à dimensão individual do sujeito. Isso transparece na própria forma do espetáculo, que privilegia os solos. E mesmo nos momentos em que o coro surge, a sensação é de simultaneidade de indivíduos e não de coletividade. Ensimesmados, para os personagens a pergunta surge do nada, brota misteriosamente, cai do céu. Por mais que, às vezes, essa seja a nossa sensação, as perguntas sempre são fruto de um trabalho. São fabricadas. Não são rochas, prontas, fechadas em si, mas sim um barro flexível, que deve ser manuseado para ganhar forma. Fruto da ação humana no mundo, a pergunta é também passível de mudança.
Assim, se mudássemos as formas das perguntas da peça, talvez chegássemos em outras cenas. Se nos perguntássemos não sobre a possibilidade do fim, mas sim de um outro começo? Se a mulher não tivesse que imaginar sua queda no trilho do trem, mas sim uma cidade em que o transporte fosse verdadeiramente público? Se o homem da bomba não tivesse que traduzir sua raiva social em um atentado, mas na organização coletiva? Se a atriz não tivesse que se submeter aos patrocinadores e pudesse se organizar junto dos seus companheiros de categoria? Se nós parássemos de dizer “não é o momento da ação, estou em plena consequência”, mas causássemos uma transformação?
Diante da peça - assim como diante da pergunta - podemos usá-la para outros fins, ao invés de termos uma aderência completa à visão do espetáculo. Podemos nos perguntar sobre a radicalidade social do “e se?”. Podemos tentar reabilitar nossa imaginação radical, fugindo das especulações fatais do mercado financeiro. Podemos pensar outras formas de fazer teatro, de ser público. Podemos…
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