TORCER A PALAVRA, a partir de "Escrevendo na cova de alguém" de Lena Giuliano

Você já pegou seu ingresso para morrer? Você já morreu hoje? Eu já li seu obituário. Não sei se quero morrer mais uma vez. Essa é a fila pra morrer?
Essas frases, tão inusuais, se tornam corriqueiras nos dias em que Lena Giuliano monta seu caixão e sua máquina de escrever. Esses dois objetos somados com uma urna funerária, velas, flores, um lenço andino e uma caixa de som são capazes de momentaneamente operar um milagre: fazer um morto ressuscitar. E os mortos somos nós - os espectadores. Ao redor do caixão vemos - ou somos vistos, caso você tenha tido a sorte ou o azar de morrer naquela sessão - um conhecido, uma amigo, um completo estranho, um estrangeiro, uma autora. Vemos um corpo deitado. Mas vemos essa massa corpórea depois de ter ouvido seus sonhos, seus desejos, medos e paixões. Mesmo um desconhecido, diante da voraz máquina de escrever e das perguntas sagazes da autora se torna um companheiro. Companheiro no sentido da partilha. Partilhamos com o entrevistado - futuro defunto - a inquietação com relação às perguntas. “E se fôssemos nós lá, naquela cadeira, sendo interrogados, diante de um caixão?” Pelas mãos da artista, nossas palavras proferidas deitam no papel. Seria o papel, o cemitério das letras? Ou uma tábua Ouija, nos possibilitando escutar os mortos? Elas traduzem aquilo que acabamos de ouvir. Observamos a criação em pleno ato. Curiosa justaposição: criar algo justamente a partir do seu oposto, a morte, o fim. Ou talvez, como muitos disseram, uma transformação. Transformação vivida ali, quando a máquina quebrou e Lena teve que passar a escrever os obituários em próprio punho. O acaso explicitando a vida permanentemente viva do teatro. Essa ligeira alteração faz imaginarmos mil situações que poderiam acontecer, como por exemplo: se alguém morresse de fato no caixão cenográfico?
No fim, a morte talvez seja apenas pretexto para fazer ver algo maior. Mas, o que poderia ser maior do que a morte, não é mesmo? Acredito, que a resposta que Lena nos lança é a palavra, afinal é ela que diz “morte”, assim como poderia dizer “vida”. É a palavra que cria em cena - e quem sabe no mundo - aquilo que vemos. É a palavra que cria a entrevista. Foi a palavra que nos convocou até ali por meio da divulgação da peça, ou da conversa com algum amigo. A palavra é o ínicio, mas parece também ser o fim, porque todos esperamos ansiosos os obituários - as palavras finais. Finais que, contraditoriamente, continuarão…
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