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TORCER A PALAVRA, a partir de "Escrevendo na cova de alguém" de Lena Giuliano

  • Foto do escritor: capivara crítica
    capivara crítica
  • 3 de abr.
  • 2 min de leitura

Você já pegou seu ingresso para morrer? Você já morreu hoje? Eu já li seu obituário. Não sei se quero morrer mais uma vez. Essa é a fila pra morrer?

      Essas frases, tão inusuais, se tornam corriqueiras nos dias em que Lena Giuliano monta seu caixão e sua máquina de escrever. Esses dois objetos somados com uma urna funerária, velas, flores, um lenço andino e uma caixa de som são capazes de momentaneamente operar um milagre: fazer um morto ressuscitar. E os mortos somos nós - os espectadores. Ao redor do caixão vemos - ou somos vistos, caso você tenha tido a sorte ou o azar de morrer naquela sessão - um conhecido, uma amigo, um completo estranho, um estrangeiro, uma autora. Vemos um corpo deitado. Mas vemos essa massa corpórea depois de ter ouvido seus sonhos, seus desejos, medos e paixões. Mesmo um desconhecido, diante da voraz máquina de escrever e das perguntas sagazes da autora se torna um companheiro. Companheiro no sentido da partilha. Partilhamos com o entrevistado  - futuro defunto - a inquietação com relação às perguntas. “E se fôssemos nós lá, naquela cadeira, sendo interrogados, diante de um caixão?”      Pelas mãos da artista, nossas palavras proferidas deitam no papel. Seria o papel, o cemitério das letras? Ou uma tábua Ouija, nos possibilitando escutar os mortos? Elas traduzem aquilo que acabamos de ouvir. Observamos a criação em pleno ato. Curiosa justaposição: criar algo justamente a partir do seu oposto, a morte, o fim. Ou talvez, como muitos disseram, uma transformação. Transformação vivida ali, quando a máquina quebrou e Lena teve que passar a escrever os obituários em próprio punho. O acaso explicitando a vida permanentemente viva do teatro. Essa ligeira alteração faz imaginarmos mil situações que poderiam acontecer, como por exemplo: se alguém morresse de fato no caixão cenográfico?

    No fim, a morte talvez seja apenas pretexto para fazer ver algo maior. Mas, o que poderia ser maior do que a morte, não é mesmo? Acredito, que a resposta que Lena nos lança é a palavra, afinal é ela que diz “morte”, assim como poderia dizer “vida”. É a palavra que cria em cena - e quem sabe no mundo - aquilo que vemos. É a palavra que cria a entrevista. Foi a palavra que nos convocou até ali por meio da divulgação da peça, ou da conversa com algum amigo. A palavra é o ínicio, mas parece também ser o fim, porque todos esperamos ansiosos os obituários - as palavras finais. Finais que, contraditoriamente, continuarão…


 
 
 

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