O DRAMA DO PALCO DIANTE DA REALIDADE DAS ARQUIBANCADAS - a partir da “Prova de Fogo”, da Cia. Conchavo de Teatro

Na noite do domingo 23/08/2026 uma relação muito particular ocorreu para o teatro brasileiro: estudantes recém saídos de uma greve na UNICAMP apresentaram “A Prova de Fogo”, de Consuelo de Castro, para uma platéia lotada de estudantes no Instituto de Artes da UNESP, que no semestre anterior viveu um ocupação de mais de 40 dias. Essa aparente sincronia entre o tema da peça e o seu contexto de recepção, na verdade revelou as distâncias entre as vivências estudantis e suas formas de representação.
Escrita no calor da ocupação do prédio da Filosofia da USP em 1968, originalmente intitulada “A invasão dos Bárbaros”, o espetáculo mostra os momentos finais do movimento estudantil na Rua Maria Antônia. Contudo, ao lidar com temas de grande amplitude social, a autora preferiu usar da forma dramática para dar voz aos seus estudantes em crise. Ao assumir esse ponto de vista, a dramaturgia precisa lançar mão de artifícios ficcionais para contextualizar a trama, como por exemplo o uso de um rádio que traz notícias de fora do prédio ocupado. Essa limitação chega ao ápice no momento de uma grande marcha, que ao invés de ser encenada é narrada por uma única estudante, solitária em cena. Diante da barreira imposta pelo drama, a peça se reduz a um enredo novelesco, de traições, uma gravidez revelada e um pai que morre repetinamente.
Contudo, se essa contradição já era reconhecível em seu contexto de escrita, ela se torna mais latente sessenta anos depois, com uma encenação que não gera nenhum deslocamento com relação à dramaturgia. O desejo de uma representação realista cria o retorno a um passado imaginado, mas que carece de contextualização. Assim, o uso de roupas e de gírias de época não dá conta de levar a plateia de 2026 para os problemas dos anos 60. Debates importantes, como por exemplo o acordo MEC-USAID, ficam apenas na citação, não levando o público do presente a refletir sobre o contexto do movimento estudantil do passado para então se reposicionar no agora.
Na falta de contexto, ficamos no eterno presente do drama, que ao invés de nos fazer refletir sobre a política do movimento estudantil, nos entretém com suas picuinhas mais comezinhas. Não por menos a platéia foi à loucura quando o noivo traído se revolta contra Rosa, mostrando o poder da estrutura dramática em nos distanciar da análise das estruturas sociais e nos jogar no calor do desejo da vingança. Como em uma novela barata das seis, rimos do corno e depois torcemos que ele se vingue da traição. Como a própria professora Elza Vicenzo reconheceu na década de 90 em seu “Um Teatro da Mulher”, “A Prova de Fogo” está longe de ser uma peça feminista. A coroação do machismo estrutural presente no espetáculo é o final, no qual Zé Freitas, líder autoritário e misógino, heroicamente saí do prédio da Maria Antônia carregando uma estudante morta nos braços.
Dessa forma, a peça despolitiza seu tema pela forma, que por sua vez despolitiza o contexto de recepção. Se em 1976, essa mesma peça encenada no canteiro de obras do prédio da História do Campus Butantã foi um acontecimento de resistência à ditadura, levando a mobilização de mais de 17 mil espectadores para suas sessões clandestinas, hoje a coisa muda de figura. O espetáculo apresentado do X ETU poderia ter sido o disparador para que estudantes recém saídos de uma greve histórica, na qual as três universidades estaduais se mobilizaram conjuntamente, refletissem sobre si a partir do passado. Contudo, ao não reconhecer a própria plateia como parte desse conflito, o espetáculo perde a oportunidade de fazer do passado uma ferramenta para pensar o presente — e o que poderia ser um encontro entre duas gerações de estudantes em luta termina reduzido à distância segura de uma plateia diante de uma história que já não parece ser a sua.
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