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O TEATRO DE GRUPO COMO NUTRIENTE, a partir de “Nitrido ou a dramaturgia de cavalo”, do Cavalo Teatro

Foto do escritor: capivara crítica
capivara crítica
24 de ago.
4 min de leitura

“Nosso povo tem morrido pela boca”. Essa frase da dramaturgia de Laís Cafari guarda a contradição produtiva da peça: por um lado a boca se tornou a parte do corpo humano privilegiada para a ingestão de produtos industrializados, que destroem os sistemas com seus excessos de glicose, óleos e conservantes; por outro lado - como a peça revela com sua lida com a palavra - a boca também é o local para o encantamento, para a crítica deste mundo e a imaginação de outro possível. Se equilibrando entre essas duas bocas, o espetáculo se situa na periferia das metrópoles, não de maneira abstrata mas situando sua reflexão sobre a sociedade a partir de um território específico: as madrugadas do Jardim Romano, no qual à noite cavalos e pessoas buscam nos descartes seus alimentos. É esse disparador concreto que trará para o espetáculo a capacidade de discutir a totalidade do sistema no qual estamos inseridos.

Para isso, a cena se constrói a partir de um coro de seis atores, que tensionam o próprio imaginário de coro. Diferentemente da ideia clássica de um conjunto de pessoas que realizam ações em sincronia e em uníssono, o coro que Cafari dirige é junto na diferença. Diferenças físicas, territoriais e até de línguas, na medida em que dois intérpretes de LIBRAS compõe a cena. Essa ética da diferença sem separabilidade - ecoando o pensamento da filósofa Denise Ferreira da Silva - nos ensina não só sobre os modos de composição da cena, mas também espelha o debate mais amplo da peça: como podemos nos nutrir das mais diversas fontes? Afinal, aquele que é obrigado a se alimentar de uma única coisa, padece.

Entre monólogos e coreografias coletivas, a peça parte da feira de rua, especificamente da xepa. A xepa se mostra como uma dispositivo econômico, que ao mesmo tempo revela a desigualdade social - “Dizem que o melhor momento para ir à feira é logo cedo, mas no meu bairro ninguém tem dinheiro para ir cedo” - se configura com um momento de interação entre os sujeitos periféricos, sejam feirantes ou consumidores. Dessa forma, o jogo entre os atores jogando caixas uns para os outros aos poucos revela a capoeira contida por trás dos movimentos, conectando o trabalho à resistência histórica. Depois disso, o merecido descanso.

É justamente no momento de descanso, enquanto comem laranjas, que o pensamento voa, e os atores fazem inúmeras associações da palavra cavalo. Vemos como a junção de três sílabas pode remeter a distintos âmbitos sociais, desdo machismo nas relações afetivas até a colonialidade presente no “Independência ou Morte”. A transformação da palavra também acontece em cena, na medida em que os objetos se transformam. O carrinho de feira vira charrete. O saco de laranja vira um bebê e assim por diante. A transformação se torna o dispositivo compositivo do espetáculo, na medida em que as cenas fragmentadas vão se unindo umas às outras sem interrupções. Assim, vamos sendo conduzidos da xepa à capoeira, ao descanso e ao futebol de várzea.

Nesse ponto a peça se abre para a relação com outros espetáculos. Os jogadores usam uma camiseta que os situam em Ururay - nome indígena de São Miguel Paulista - e dão uns salve aos Resets, fazendo referência aos espetáculos do Coletivo Estopô Balaio, que realiza um longo trabalho no território. Assim como no Reset Brasil o Estopô retoma o passado, Cavalo reflete sobre as origens do bairro do Jardim Romano, sobre a apropriação das terras por Salvador Romano, o loteamento, o adensamento populacional e o desaparecimento das hortas de quintal.

A peça, então, conecta a questão urbana à forma com a qual a periferia foi obrigada a se alimentar, marcada por cestas básicas recheadas de doces e óleos. Os ingredientes dos produtos são rezados em cantos corais, nos alertando também sobre as conexões entre Igreja e produção latifundiária. Por fim, nesse exercício de memória, a reza chega ao ápice com a farinata, projeto asqueroso da prefeitura de João Doria, que iria dar restos de alimentos em pó nas escolas da rede municipal.

Nesse movimento da memória, o espetáculo encontra uma dimensão que ultrapassa a própria narrativa do Jardim Romano. Afinal, se a peça investiga as formas pelas quais um território foi sendo alimentado — e também aquilo que lhe foi retirado —, ela nos permite perguntar: o que alimenta o próprio fazer teatral? É nesse ponto que a origem de “Nitrido” - uma oficina de dramaturgia do Coletivo Estopô Balaio - se torna especialmente significativa. Nesse sentido, o teatro de grupo pode ser pensado à imagem da agricultura familiar: diverso, territorializado e baseado em relações de cuidado e partilha. Em contraste, os grandes espetáculos comerciais se aproximariam do agronegócio, marcado pela escala, pela concentração e pela lógica da produtividade. Embora o Cavalo Teatro ainda não se reconheça como um grupo, mas como uma “família de apaixonados”, como definiu um dos atores no debate pós-espetáculo, Nitrido revela justamente a potência do teatro de grupo: a capacidade de se espalhar, criar raízes em outros territórios e nutrir novas coletividades.

 
 
 

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